terça-feira, 7 de outubro de 2014

Resenha - Ed.I R.T.

Steinebeck, John. (2010). Ratos e Homens. Porto Alegre: L&PM POCKET.

Um esboço da frágil condição humana

O romancista norte-americano John Steinbeck, Nascido em Salinas (Califórnia), e pertencente a uma família, hoje considerada de classe média, acompanhou desde muito cedo a saga dos trabalhadores rurais daquela região. A sensibilidade e aguda percepção do autor, devotadas àquele contexto, mais tarde, se tornariam essenciais na composição das personagens com as quais o retrata.
“Ratos e Homens” (1937), um dos seus romances mais conhecidos foi publicado na década de 30, período seguinte ao crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque, e conhecido como a época da “Grande Depressão Americana”.  Durante a recessão, a América e o mundo encontravam-se mergulhados em uma terrível crise e as condições materiais do homem pesavam esmagadoramente sobre a subjetividade dele, ameaçando de forma severa a sua dignidade.
Nesse momento em que as relações humanas encontram-se profundamente abaladas, através de figuras como George, Lennie, Candy e Crooks, Steinbeck nos dá a dimensão de sentimentos como: amizade, solidão e liberdade. O livro narra de maneira muito dura, mas comovente, o drama de dois amigos na luta pela sobrevivência e pelo triunfo de um sonho: saírem da peregrinação por fazendas alheias e aquietarem-se num canto que seja deles e sobre o qual tenham total autonomia assim como sobre e eles próprios.
A narrativa se inicia com uma bela descrição do rio Salinas, onde às suas margens, mendigos e outros desabrigados, à noite, vêm se recolher. É nesse ambiente sereno que George e Lennie, personagens centrais da história, como dois peregrinos surgem, vindo de uma fazenda em Weed (Norte) em direção a uma outra em Soledad (Sul) na qual esperam acumular o suficiente para deixarem essa vida errante.
Por um breve intervalo, a fotografia do rio sutilmente se contrasta com a dos dois homens cujo retrato revela diferenças gritantes entre si em termos físicos e psicológicos. George é apresentado como um tipo de baixa estatura, mas com perspicácia e sensatez, ao contrário de Lennie, um gigante humano, porém de mente e coração frágeis. Curiosamente, no que se refere à indumentária, ambos se apresentam absolutamente iguais, metáfora que corrobora com a ideia de universalidade do drama humano, revelando, mais uma vez, a sagacidade do autor em apreender e exteriorizar a realidade em todas as suas nuances.
Contudo, enquanto vítimas do sistema, e no caso de Lennie da própria natureza, muitos são os obstáculos encontrados pelo caminho, até o dia fatídico em que o descontrole da sua força física descomunal associada à falta de malícia, leva à morte a esposa do filho do patrão, essa, como eles, outra vítima da situação, da opressão, mas que caracteriza, no dizer poético-filosófico de Drummond, a pedra no caminho dos dois amigos ou, no realismo duro de Steinbeck, a chave que os encerra na ruína. Destino ou contingência, o fato é que essa diabólica mulher acaba também por apressar a morte de Lennie, e consequentemente lançar o amigo George ao desespero, à solidão da qual padecem os demais homens daquele rústico ambiente.
O livro chama-nos a atenção para esse aspecto largamente discutido quando se trata das relações humanas. Nele, a solidão adquire um caráter austero, em que é responsável por dar ao homem a concentração que precisa para lutar por melhores condições materiais, e considerando o contexto, não é por acaso que ela se banaliza ao ponto de fazerem as pessoas esquecerem-se da necessidade do outro e do bem que fazem as relações mútuas.
Assim, ao longo da narrativa nos deparamos com um séquito de tipos solitários, amargurados, como se a decadência, a privação dos tempos em que vivem, tivessem aniquilado o sentimento de humanidade a essa espécie inerente. Percebemos isso na personagem Crooks, o estribeiro, que excluído do convívio daqueles igualmente marginalizados, derrama todo o seu fel sobre o inocente Lennie, atitude que deve ser compreendida como um desejo mórbido de superioridade e não meramente sadismo. 
O contraponto que o autor faz com a amizade entre George e Lennie enfatizada em toda a narrativa, comprova, numa primeira análise, que em ambientes hostis há lugar para a afetividade. Esse sentimento, entretanto, se configura, antes como uma troca de interesses do que algo sublime, o que vai de encontro à concepção dos filósofos da antiguidade, que viam na amizade um laço fraterno, ou mais que isso, de acordo com Cícero: “Verus amicus est tamquam alter idem”, um outro eu. Aqui, dadas as circunstâncias, o que acaba por unir George e Lennie é a necessidade, um precisa do outro para dividir, e por fim, suportar mais facilmente o próprio fardo.
Com efeito, a existência desse laço, não apenas atenua a dura peregrinação de ambos, a jornada de trabalho, que juntamente com os outros peões são submetidos, e que chega a onze horas diárias, mas até mesmo a iminência da morte, um comovente caso de eutanásia.
Além da amizade, George e Lennie são unidos pelo sonho de comprar um pequeno pedaço de terra, onde possam fincar raízes, um desejo que já havia aquecido o coração de muitos trabalhadores, e, uma vez fracassado, só deixou a amargura. Esses recorrem à própria experiência na tentativa de abrir os olhos dos amigos para a realidade em que vivem. Porém, a este singelo sonho a vida dos dois se resume, é a ladainha que George canta para Lennie nos momentos de aflição, de transe, a fim de acalmá-lo, como a canção de ninar, que a criança necessita para entregar-se à tranquilidade do sono. E são com essas notas: um terreno... uma casa... uma horta... coelhos... alfafas..., que George salva Lennie de uma morte trágica e o faz adormecer profunda e eternamente com a visão do paraíso, matando-o com as suas próprias mãos.
Steinbeck mostra, dessa maneira, o sentimento de amizade levado ao seu limite, em que é preciso ignorar a própria consciência, abrir mão de todo o egoísmo, que se exacerba quando se ama, para enfim libertar o outro, e em contrapartida a si mesmo. A maestria com que trata a questão, não especificamente esse desfecho trágico, mas toda a problemática do livro é responsável por dar a uma história aparentemente trivial, uma dimensão sígnica estratosférica.
Nesse pequeno romance, o autor nos acena com um leque de questões, que podem ser amplamente discutidas, tanto no âmbito literário e filosófico, quanto social, mas principalmente, ele nos leva a pensar a frágil condição humana e indagar: Poderemos fazer algo para melhorar as nossas relações enquanto pessoas? Recorrendo ao exemplo do próprio autor, poderíamos direcionar o nosso olhar ao outro, dedicando-lhe um afeto sincero como, dentro das suas possibilidades, fizeram George e Lennie, isso, no mínimo, representaria um passo para um novo recomeço.
Infelizmente, quem vivencia situação semelhante à daqueles pobres trabalhadores, ainda que dos meandros da ficção, compreende a dificuldade de manter esperanças, quando a nossa condição é um fardo sem atenuantes. E nessa perspectiva, o desfecho da história nos comprime, nos atormenta, nos fragiliza, comprovando que Steinebek ao explorar o âmago das suas personagens, conseguiu atingir o ápice da sensibilidade daqueles que concebem a existência como ponte de grandes emoções, mas acima de tudo, como lugar perene de angústia e desespero.


R.T.

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