A esperança é a última que morre...
(conto)
«Minha
atração por você é carnal, mas carnal suave, dê-me sua mão.....»
Pensava
eu enquanto ela sorria de uma opinião pessoal dada de supetão. Aquele
pensamento era estranho, era meu, mas viria ele da necessidade de entender como
seria um possível princípio sempre adiado, ou por que ela estava fadada, na sua
intensa jovialidade a ser desejada e eu não passava de um veículo, um marionete
desse sentimento?
Puta
merda! por que penso essas coisas? não pensasse tanto e já saberíamos o odor
dos nossos suores. Ou não! pelo menos era um fato. Ela ainda sorria, linda como
uma menina. Muito gostosa. Olhando-a via um não-sei-o-que de sexual romanceado,
uma sensação meio real meio abstrata. Supunha mil e uma texturas para sua pele,
sentia na ponta dos dedos, uma pele morena, estupidamente lisa. Quente!, só
pode ser. Penetrá-la deve ser mergulhar em Cracatua. Ah! Cracatua de pernas e
sorrisos. Cada tom da sua voz, até daquele risinho abafado, um chamamento de
lava sussurando a queimar-me até o pó no seu corpo. Suspira abaixando
delicadamente o rosto, num gesto gentil e sexy... minha respiração perde o
compasso....
É
uma brincadeira deliciosa e cruel (provavelmente por isso mesmo). Ela está
aqui, conversa comigo e nem imagina que cada palavra desimportante que diz,
rapidamente como de costume, é um desdém à mil imaginações que povoam meu
silêncio de ouvinte naqueles momentos.
«Um
carro rodando pela estrada da chapada, os cabelos dela voando com o vento.
Conversas no quarto de hotel:
- Sua condição de mulher me excita, quem sabe
até permito que te deites comigo.
- Por favor meu amo e senhor!
E
caímos em sorrisos da graça mais sutil»
Ou
aquela outra:
«(sentados
numa pedra, abraçados) Se algum dia fosse obrigado a ter um filho (deus me
livre), e se fosse como você, teria que cuidar para que seu nome no diminutivo
não interferisse na sua imagem de mãe, não acha? pode afetar sua autoridade.
- Ok, mas acho que mudar pro aumentativo não
ia resolver.
- É, vamos ter que criar estratégias
linguísticas maternais.»
Penso,
penso demais. Não se trata de pensar no ato, isso é normal, inevitável. Digo,
pensar na consequência da consequência, da consequência de uma palavra. Maldição!
Olhando-a
observo que sua inquietação é visível em minha presença. Disfarça, se policia,
procura não opinar sobre nada diretamente. Que diria ela de uma proposta
direta?
«Suspeito
que a densidade do colchão aceitaria o desafio da tua jovialidade, eu também,
portanto, dois contra um...» Viagem minha.
Quem
sabe uma poesia?
Excelsior cume do meu desejo
eu me perder em ti
suponho, não é mais uma escolha
E vejo
já me perdi
Sou
obrigado a rir dos meus próprios pensamentos.......
A
verdade é que não posso supor uma alternativa com certeza, e o preço de testar
essa pode ser caro. Quanto? Estar errado não é nada demais, é? É como estar
certo só que ao contrário. O problema é que não funciona com os outros a
maleabilidade do certo e do errado. Só funciona em nós ou num acordo. Não, não,
sem acordos por enquanto.
Surpreendo
quando num gesto todo natural ela se deita na minha cama. Um sinal? Que grande
maquiavélica. Observo calmamente suas curvas sob o jeans. Com um pouco de
imaginação virtual posso vê-la nuinha. Decerto ela não estaria falando de
cinema se estivesse nua, ou pelo menos imagino que não. Bom, quem sabe sobre
Bertolucci.
Vinte
centímetros ou menos me separa daquele corpo em minha frente, dependendo de
como ela se posiciona deitada para falar comigo. Sinto a angústia rodopiando
freneticamente pelos músculos. Num relance ouço seu gemido na minha orelha,
suas unhas arranhando minhas costas, seus seios nos meus lábios...
- Marlon brando estava muito estranho no
«Último tango...» não acha?
- Hum?
- Ele estava muito estranho, meio cinza,
parecia um degenerado.
- Degenerado, hum.... (minaram ali todas as
minhas forças)
- Pois é, realmente, muito cinza... (uma
última tentativa) mas o que você achou mesmo de «Os sonhadores»?
J.N.Jr.
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