Editorial
Onde
mora o terror?
Há alguns anos atrás, da comemoração
exaltada de grande parte do mundo por causa do “acontecimento” da morte de
Osama Bin Laden, eu questionei o fato, questionei a alegria pela morte de uma
pessoa, e acima de tudo, questionei a ideia ilegítima e ingênua de que aquele
acontecimento seria um afeto ou mesmo um arranhão na estrutura terrorista que
ganhava corpo naquela época e hoje está em plena forma. Não tinha sentido
comemorar a morte de um terrorista, isso era óbvio para mim, os acontecimentos
recentes comprovam a afirmação. Meu pensamento é facilmente compreendido e
expresso: o terrorista é um apaixonado, o nome da sua paixão é fé, mas como todo
apaixonado uma morte espetacularizada é o oposto de uma ofensa, de um desfalque
ou mesmo d e um desânimo. É o contrário. Ele vive, treina, se dedica para a sua
morte, pelo seu sacrifício. Quanto maior a extensão do efeito e do conhecimento
do seu efeito, melhor.
Acreditasse eu numa outra vida
consciente, não teria dúvida alguma de que Osama exultava quando faziam
anúncios oficiais e festas pela sua morte. Era a coroação. O terror não tem um
fim em si, sua retentiva é o efeito posterior, ainda que o imediato seja grave
e forte. O nome é evidente, terror é um sentimento, um sentimento que serve
para controlar as pessoas. Para mantê-las caladas, banhadas de suor frio,
dóceis. A própria ideia da morte de um terrorista, se levada a uma análise
inteligente é um desproposito. Matar alguém que já está disposto e convicto a
matar-se é fazer-lhe um favor. Matar um terrorista, em vez de ser um evento de
congratulações devia ser encarado como o fato de inevitabilidade da ocasião,
senão um ocaso lamentável, uma vez que só alimenta ainda mais a gana e a ira
dos outros.
Dentre toda a vastidão do Ocidente há
que se pensar por que a França tem sido o alvo preterível do Estado Islâmico.
Qual o motivo da insistência? Desde o Charlie Habdo, onde era evidente a
motivação, a França não deixou de ser alvo preferido dos terroristas. É preciso
pensar nisto. Teria o apoio Francês aos Estados Unidos na invasão de
Afeganistão, Líbia, Iraque, etc, algo a ver com isso? Teria esse tipo de
intervenção ajudado a impulsionar a criação de grupos terroristas que hoje
assombram o ocidente? São mais algumas coisas a se pensar;
No entanto, as ameaças continuam a uma
série de outros países e, mesmo com a resposta lamentável da França
bombardeando a Síria e matando crianças e civis, é perceptível que o Estado
Islâmico só ganha força. Penso que a incidência cada ver maior de jovens se
recrutando no movimento terrorista tem a ver com o esvaziamento de sentido que
a nossa sociedade criou. Onde estão os sentidos que movem o indivíduo a viver?
Onde está a credibilidade aos governantes, aos representantes das populações de
diversos países? não há mais sentimento de “pertença” a nada. Pelo menos nada
durável. Daí surge essa síndrome de Erostrato, diante da vida sem sentido
nenhum, faz-se algo terrível e detestável, porém visível e repercutível, para
que a vida tenha um “quê”. Aquiles sabia do seu destino, escolheu-o e perpetuou
o seu nome. Alimentamos os anseios dos Erostratos e Aquiles modernos e pagamos
pela lamentação e pela fúria irracional. Onde mora, de fato, o terror?
J.N.Jr.
Nenhum comentário:
Postar um comentário