sábado, 11 de outubro de 2014

Editorial - Ed.V

Editorial

Onde mora o terror?

Há alguns anos atrás, da comemoração exaltada de grande parte do mundo por causa do “acontecimento” da morte de Osama Bin Laden, eu questionei o fato, questionei a alegria pela morte de uma pessoa, e acima de tudo, questionei a ideia ilegítima e ingênua de que aquele acontecimento seria um afeto ou mesmo um arranhão na estrutura terrorista que ganhava corpo naquela época e hoje está em plena forma. Não tinha sentido comemorar a morte de um terrorista, isso era óbvio para mim, os acontecimentos recentes comprovam a afirmação. Meu pensamento é facilmente compreendido e expresso: o terrorista é um apaixonado, o nome da sua paixão é fé, mas como todo apaixonado uma morte espetacularizada é o oposto de uma ofensa, de um desfalque ou mesmo d e um desânimo. É o contrário. Ele vive, treina, se dedica para a sua morte, pelo seu sacrifício. Quanto maior a extensão do efeito e do conhecimento do seu efeito, melhor.
Acreditasse eu numa outra vida consciente, não teria dúvida alguma de que Osama exultava quando faziam anúncios oficiais e festas pela sua morte. Era a coroação. O terror não tem um fim em si, sua retentiva é o efeito posterior, ainda que o imediato seja grave e forte. O nome é evidente, terror é um sentimento, um sentimento que serve para controlar as pessoas. Para mantê-las caladas, banhadas de suor frio, dóceis. A própria ideia da morte de um terrorista, se levada a uma análise inteligente é um desproposito. Matar alguém que já está disposto e convicto a matar-se é fazer-lhe um favor. Matar um terrorista, em vez de ser um evento de congratulações devia ser encarado como o fato de inevitabilidade da ocasião, senão um ocaso lamentável, uma vez que só alimenta ainda mais a gana e a ira dos outros.
Dentre toda a vastidão do Ocidente há que se pensar por que a França tem sido o alvo preterível do Estado Islâmico. Qual o motivo da insistência? Desde o Charlie Habdo, onde era evidente a motivação, a França não deixou de ser alvo preferido dos terroristas. É preciso pensar nisto. Teria o apoio Francês aos Estados Unidos na invasão de Afeganistão, Líbia, Iraque, etc, algo a ver com isso? Teria esse tipo de intervenção ajudado a impulsionar a criação de grupos terroristas que hoje assombram o ocidente? São mais algumas coisas a se pensar;
No entanto, as ameaças continuam a uma série de outros países e, mesmo com a resposta lamentável da França bombardeando a Síria e matando crianças e civis, é perceptível que o Estado Islâmico só ganha força. Penso que a incidência cada ver maior de jovens se recrutando no movimento terrorista tem a ver com o esvaziamento de sentido que a nossa sociedade criou. Onde estão os sentidos que movem o indivíduo a viver? Onde está a credibilidade aos governantes, aos representantes das populações de diversos países? não há mais sentimento de “pertença” a nada. Pelo menos nada durável. Daí surge essa síndrome de Erostrato, diante da vida sem sentido nenhum, faz-se algo terrível e detestável, porém visível e repercutível, para que a vida tenha um “quê”. Aquiles sabia do seu destino, escolheu-o e perpetuou o seu nome. Alimentamos os anseios dos Erostratos e Aquiles modernos e pagamos pela lamentação e pela fúria irracional. Onde mora, de fato, o terror?


J.N.Jr.

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