terça-feira, 7 de outubro de 2014

Ensaio Ed.I J.N.Jr.

OS DADOS DADOS PELA RAZÃO (1)

O preço que pagamos pelo uso inadvertido dos sentidos é caríssimo. O mundo nos exaspera sem tréguas. Agudos e prosternados temos ouvidos para as imprecações desenfreadas de pregadores de todo tipo, sobre crenças de toda espécie. Recebemos essa inundação descontrolada por todos os meios, diretos e indiretos. Se ligamos a televisão, o rádio (isso ainda existe?), o computador, estão a nos bradar. Se abrimos os olhos na rua as imagens convulsionantes nos perseguem aos gritos, se conversamos com o colega, temos ecoados na sua voz as mesmas ladainhas. Ah! Senhores, se pensam que esses pregadores de que falo ardorosamente são aqueles clássicos, bem vestidos, voz grave e pausada, que conhecemos notadamente do âmbito da religião, se enganam sumariamente. Embora este também seja um deles. De fato, não é exatamente o pregador que nos importa, é o seu discurso. Os pregadores se multiplicam, se modificam, mudam de lado e de estratégia. Não mais importa hoje se é o padre vociferando seu sermão, ou o simpático e ágil apresentador de tv-shopping vendendo o aparelho de 999 funções com brinde “inteiramente grátis”. Não importa se é o político “on demand” moderno e deliciosamente maleável leiloando seu caráter com a proposição básica: - “quem dá mais”? Ou se é o militante de esquerda que trabalha de segunda a sexta e intercala o debate político/revolucionário (com direito a marxismos elevados e citações de Gramci e Bourdieu), com exasperadas reclamações sobre o preço do combustível para seu carrinho “necessário”. Inúmeros são os tipos, sortidos poderia dizer. No entanto, o que me interessa verdadeiramente e o que compreendo ser mais importante é um ponto em particular dentro dessa caótica súmula discursiva. Em suma, e levado a cargo esse expediente, transformar uma suspeita em têrmo de busca. Busca para encontrar esse ponto crucial e fulminante que liga esses discursos, e em certo sentido os iguala. Lugar de intersecção em que eles se assemelham, caráter interdisciplinar que sobrepujando todas as diferenças de nível enunciativo, de lugar de fala, de objetivo, e até de sentido, estando presente em todos, expressa por cima das irregularidades uma mesma e única falsidade, exorta os adversários infundindo num mesmo e único erro, constrói-se na mesma escala de absurdo e negação dos seus irmãos, dessemelhantes em tudo, menos no uso da máxima categórica: eu tenho razão!
A abundância de perspectivas e meios de abordagem de um problema como esse, são de uma vastidão incalculável. Tomando só e primeiramente a própria suspeita contra si mesma, já nos encontramos com um problema aparentemente muito sério: em curso de questionar a verdade ou falsidade da razão dos outros, o que nos daria razão? Ou melhor, como extirpar da argumentação alheia a sua razão por meio de outra argumentação que em si, para se expressar, necessita impor-se também como possuidora de razão? De fato, parece um problema demasiado complexo, não fosse ele a despeito disso, demasiado simples. A resposta porém, trará mais uma questão tardia. Suprime-se parcialmente a questão da razão sabendo que é preciso que o pensamento seja vivo, é necessário que as ideias estejam em movimento. Esta, só, já é uma desculpa suficiente para a insurgência de uma “razão” sobre outra. Nada nasce sem antes seja cometido um assassínio, é sobre os despojos de uma destruição que se erguem novas construções. Isso com muito otimismo. No entanto, ainda que futuramente tornadas inválidas, as discussões põem em movimento as ideias, inclusive esta. Sob o adágio de uma refutação são postos em sentido muitas vertentes, muitos caminhos, é a mesma lógica do bom inventor: ele não erra milhares de vezes, apenas descobre milhares de formas de como não fazer o que procura. Posto em movimento o tema por meio da discussão, da refutação, estará já cumprida a meta. Aquele que supõe o poder de esgotar um assunto, seja ele qual for, age muito ingenuamente. Participamos do passe, se quisermos, melhoramos a jogada, se pudermos, mas não se chega ao gol absoluto. Todo o mundo emperra nos que se julgam artilheiros da razão, e pensam fazer gols a todo momento. Gastam seu tempo com firulas de comemoração, e descansam na burrice do dever cumprido. Seria fácil se somente a esses goleadores ficasse relegado o tempo dos seus enganos, no entanto, todos esses tem hordas de torcedores, que pelo erro primário de se julgarem incapazes de participar do jogo das discussões, com seus gritos de apoio, incutem ainda mais profundamente na cabeça dos “escalados e titulares” que eles realmente contribuem para o progresso do time. Que realmente seus chutes/argumentos são finalizações e que estas, devem ser comemoradas.
Bom, sem mais metáforas de futebol, ficamos com o pensamento envolto na questão da razão, esta, diluída entre a tendência humana da apropriação, (quando julgamos a priori que a possuímos), a tendência do senso comum (que hierarquiza o poder e escolhe representantes capitais para possuí-la), a tendência dos possíveis representantes (que podem agir por ingenuidade ou má fé, dependendo de saber ou não se de fato a possuem ou procuram), e a tendência elevada (a não enxergar nisso tudo mais um poder estático, mas que relativiza a posse da razão e coletiviza seu fulcro de tal forma que ela não tem mais importância imediata, deixa de se fazer dado, fato, para ser processo).
Quantas instituições, quantas pessoas, quantos discursos, ao nosso redor onde podemos entrever essas tendências gerais? Quantas você vê? Onde você se vê leitor?
Aliás, antes pergunte a você mesmo, com sinceridade: tenho razão quando julgo que tenho razão?
Não vá fundir sua cuca. Pense a frio. Observe. Veja por onde andam os tentáculos da razão: sobre você? com você? em você?


J.N.Jr.

Nenhum comentário:

Postar um comentário