OS DADOS DADOS PELA RAZÃO (1)
O
preço que pagamos pelo uso inadvertido dos sentidos é caríssimo. O mundo nos
exaspera sem tréguas. Agudos e prosternados temos ouvidos para as imprecações
desenfreadas de pregadores de todo tipo, sobre crenças de toda espécie.
Recebemos essa inundação descontrolada por todos os meios, diretos e indiretos.
Se ligamos a televisão, o rádio (isso ainda existe?), o computador, estão a nos
bradar. Se abrimos os olhos na rua as imagens convulsionantes nos perseguem aos
gritos, se conversamos com o colega, temos ecoados na sua voz as mesmas
ladainhas. Ah! Senhores, se pensam que esses pregadores de que falo
ardorosamente são aqueles clássicos, bem vestidos, voz grave e pausada, que
conhecemos notadamente do âmbito da religião, se enganam sumariamente. Embora
este também seja um deles. De fato, não é exatamente o pregador que nos
importa, é o seu discurso. Os pregadores se multiplicam, se modificam, mudam de
lado e de estratégia. Não mais importa hoje se é o padre vociferando seu
sermão, ou o simpático e ágil apresentador de tv-shopping vendendo o aparelho
de 999 funções com brinde “inteiramente grátis”. Não importa se é o político “on demand” moderno e deliciosamente
maleável leiloando seu caráter com a proposição básica: - “quem dá mais”? Ou se
é o militante de esquerda que trabalha de segunda a sexta e intercala o debate
político/revolucionário (com direito a marxismos elevados e citações de Gramci
e Bourdieu), com exasperadas reclamações sobre o preço do combustível para seu
carrinho “necessário”. Inúmeros são os tipos, sortidos poderia dizer. No
entanto, o que me interessa verdadeiramente e o que compreendo ser mais
importante é um ponto em particular dentro dessa caótica súmula discursiva. Em
suma, e levado a cargo esse expediente, transformar uma suspeita em têrmo de
busca. Busca para encontrar esse ponto crucial e fulminante que liga esses
discursos, e em certo sentido os iguala. Lugar de intersecção em que eles se
assemelham, caráter interdisciplinar que sobrepujando todas as diferenças de
nível enunciativo, de lugar de fala, de objetivo, e até de sentido, estando
presente em todos, expressa por cima das irregularidades uma mesma e única
falsidade, exorta os adversários infundindo num mesmo e único erro, constrói-se
na mesma escala de absurdo e negação dos seus irmãos, dessemelhantes em tudo,
menos no uso da máxima categórica: eu tenho razão!
A
abundância de perspectivas e meios de abordagem de um problema como esse, são
de uma vastidão incalculável. Tomando só e primeiramente a própria suspeita
contra si mesma, já nos encontramos com um problema aparentemente muito sério:
em curso de questionar a verdade ou falsidade da razão dos outros, o que nos daria
razão? Ou melhor, como extirpar da argumentação alheia a sua razão por meio de
outra argumentação que em si, para se expressar, necessita impor-se também como
possuidora de razão? De fato, parece um problema demasiado complexo, não fosse
ele a despeito disso, demasiado simples. A resposta porém, trará mais uma
questão tardia. Suprime-se parcialmente a questão da razão sabendo que é
preciso que o pensamento seja vivo, é necessário que as ideias estejam em
movimento. Esta, só, já é uma desculpa suficiente para a insurgência de uma
“razão” sobre outra. Nada nasce sem antes seja cometido um assassínio, é sobre
os despojos de uma destruição que se erguem novas construções. Isso com muito
otimismo. No entanto, ainda que futuramente tornadas inválidas, as discussões
põem em movimento as ideias, inclusive esta. Sob o adágio de uma refutação são
postos em sentido muitas vertentes, muitos caminhos, é a mesma lógica do bom
inventor: ele não erra milhares de vezes, apenas descobre milhares de formas de
como não fazer o que procura. Posto em movimento o tema por meio da discussão,
da refutação, estará já cumprida a meta. Aquele que supõe o poder de esgotar um
assunto, seja ele qual for, age muito ingenuamente. Participamos do passe, se
quisermos, melhoramos a jogada, se pudermos, mas não se chega ao gol absoluto.
Todo o mundo emperra nos que se julgam artilheiros da razão, e pensam fazer
gols a todo momento. Gastam seu tempo com firulas de comemoração, e descansam
na burrice do dever cumprido. Seria fácil se somente a esses goleadores ficasse
relegado o tempo dos seus enganos, no entanto, todos esses tem hordas de
torcedores, que pelo erro primário de se julgarem incapazes de participar do
jogo das discussões, com seus gritos de apoio, incutem ainda mais profundamente
na cabeça dos “escalados e titulares” que eles realmente contribuem para o
progresso do time. Que realmente seus chutes/argumentos são finalizações e que
estas, devem ser comemoradas.
Bom,
sem mais metáforas de futebol, ficamos com o pensamento envolto na questão da
razão, esta, diluída entre a tendência humana da apropriação, (quando julgamos
a priori que a possuímos), a tendência do senso comum (que hierarquiza o poder
e escolhe representantes capitais para possuí-la), a tendência dos possíveis
representantes (que podem agir por ingenuidade ou má fé, dependendo de saber ou
não se de fato a possuem ou procuram), e a tendência elevada (a não enxergar
nisso tudo mais um poder estático, mas que relativiza a posse da razão e
coletiviza seu fulcro de tal forma que ela não tem mais importância imediata,
deixa de se fazer dado, fato, para ser processo).
Quantas
instituições, quantas pessoas, quantos discursos, ao nosso redor onde podemos
entrever essas tendências gerais? Quantas você vê? Onde você se vê leitor?
Aliás,
antes pergunte a você mesmo, com sinceridade: tenho razão quando julgo que
tenho razão?
Não
vá fundir sua cuca. Pense a frio. Observe. Veja por onde andam os tentáculos da
razão: sobre você? com você? em você?
J.N.Jr.
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