terça-feira, 7 de outubro de 2014

Ensaio Ed.I - R.T.

LIBERDADE DA MULHER: UMA QUESTÃO A SER REVISADA

Ser livre, diz Simone de Beauvoir, não é ter o poder de fazer qualquer coisa; é poder superar o dado rumo a um futuro aberto. O sentido lato que a filósofa atribui à palavra liberdade nos põe diante de uma instigante questão: o fato de a mulher ter conquistado a sua autonomia fez dela um ser verdadeiramente livre? A sua luta por direitos iguais, não teria facultado uma noção, um tanto confusa de liberdade?
Conforme sabemos, o século passado foi decisivo para as mulheres ocidentais que, uma vez conscientes da situação de extrema nulidade à qual foram submetidas engajaram-se na luta contra a opressão masculina, essa, legitimada pela ciência, a religião, as leis, que as esmagavam em sua individualidade. Ainda assim, ela conquistou o direito ao voto, à educação formal, ao trabalho, o que na visão de muitos basta para confirmar a sua liberdade. Essa reivindicação, entretanto, ou mais especificamente o fato de ter que conquistar tais direitos, acabou por reduzir a noção de liberdade feminina a meros atos cívicos, e não como quer Sartre “uma condenação”, menos ainda Nietzsche “um desejo de potência”.
Com efeito, a mulher ter saído daquele estado de infantilismo descrito por Beauvoir, que consistia em acatar sem discussão as opiniões e valores criados pelos homens, realizando somente por meio deles a sua liberdade, não a resguardou de certas armadilhas e ilusões; temos hoje, por exemplo, uma lei exclusiva para ela, a Lei Maria da Penha que, pretende protege-la da violência doméstica. Não nos cabe aqui discutir a sua eficácia, mas inevitavelmente indagar: a mulher tornou-se mais respeitável depois dela? Na constituição penal brasileira existe lei para punir agressores em casos de violência, independentemente do sexo das vítimas, sendo escusada, portanto, uma lei específica; mesmo porque medidas separatistas como essa, longe de promover a igualdade entre os sexos acentuam, ainda mais as diferenças entre eles e com isso o estigma sobre a mulher.
Por razões como essa, jamais poderíamos conceber qualquer forma de igualdade ou liberdade que prescindisse da ética, entretanto, o desrespeito, a violação aos direitos e, sobretudo à subjetividade humana ainda persistem. No caso das mulheres, como vimos tratando, o preconceito apenas se inverte; se hoje, questionada acerca do futuro uma adolescente revela o desejo de casar-se, possuir um lar e filhos, será vista, no mínimo, com espanto, já que vivemos a era da “supervalorização da mulher” e não podemos incorrer a nada que lembre aquele passado de opressão. O seu desejo deve ser um fator preponderante, antes de tudo porque é no embate entre querer e poder, poder e dever que temos a concretização do que é ser livre; aquilo que nos tira da imanência e nos lança à transcendência, e que, portanto, não deveria ser questionado, sendo o grande ideal do ser humano.
Mas, enfim, como ser, manter-se livre, quando a nossa afirmação enquanto sujeitos depende do Outro tanto quanto de nós? É simplesmente inconcebível qualquer forma de libertação na ausência da ética, e o fato da nossa subjetividade estar ligada a um projeto moral, sinaliza a relevância do outro nesse processo, e nos remete, mais uma vez ao aspecto duplo da liberdade feminina; se não tivesse que lutar pelo direito à liberdade, e só posteriormente pela liberdade em si, talvez não atribuíssem a essa uma conotação demasiado simplória, ainda hoje associada à igualdade de direitos. De qualquer modo, isso não diminui o mérito das mulheres, visto que não se acovardaram diante de uma sociedade opressora, feita toda contra elas; e se não conseguiram transcender, nada é devido ao seu sexo.
Com base nesse histórico de lutas indagaremos por fim: será que estamos honrando a memória das nossas predecessoras? E quanto ao valiosíssimo legado que nos deixaram, a “liberdade”, estamos fazendo bom uso dela?
As vezes traída pelos fatos, penso ainda não termos saído daquele estado de ignorância e inanição, tão vil se revela a conduta de determinadas mulheres, e num ímpeto irracional me interrogo: foi para isso que Joana D'arc arriscou sua pele à fogueira; que a corajosa Olympe de Gouges após lutar pelos ideais burgueses: Liberdade, Igualdade e Fraternidade acabou guilhotinada; e, mais tarde Simone de Beauvoir enfrentou toda sorte de injúrias? Sei que a liberdade nem sempre repousa na virtude, mas é necessário honrar a nossa história, nos esforçar, senão para deixar um legado positivo às gerações futuras, pelo menos preservar o que nos foi deixado.
A nossa geração urge por um processo de conscientização, de rememoração, quem sabe isso tire as mulheres desse novo transe e novamente as lance àquele futuro aberto de que falava Beauvoir.



R.T.

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