LIBERDADE DA MULHER: UMA QUESTÃO A SER REVISADA
Ser
livre, diz Simone de Beauvoir, não é ter o poder de fazer qualquer coisa; é
poder superar o dado rumo a um futuro aberto. O sentido lato que a filósofa
atribui à palavra liberdade nos põe diante de uma instigante questão: o fato de
a mulher ter conquistado a sua autonomia fez dela um ser verdadeiramente livre?
A sua luta por direitos iguais, não teria facultado uma noção, um tanto confusa
de liberdade?
Conforme
sabemos, o século passado foi decisivo para as mulheres ocidentais que, uma vez
conscientes da situação de extrema nulidade à qual foram submetidas
engajaram-se na luta contra a opressão masculina, essa, legitimada pela
ciência, a religião, as leis, que as esmagavam em sua individualidade. Ainda
assim, ela conquistou o direito ao voto, à educação formal, ao trabalho, o que
na visão de muitos basta para confirmar a sua liberdade. Essa reivindicação,
entretanto, ou mais especificamente o fato de ter que conquistar tais direitos,
acabou por reduzir a noção de liberdade feminina a meros atos cívicos, e não
como quer Sartre “uma condenação”, menos ainda Nietzsche “um desejo de
potência”.
Com
efeito, a mulher ter saído daquele estado de infantilismo descrito por
Beauvoir, que consistia em acatar sem discussão as opiniões e valores criados
pelos homens, realizando somente por meio deles a sua liberdade, não a
resguardou de certas armadilhas e ilusões; temos hoje, por exemplo, uma lei
exclusiva para ela, a Lei Maria da Penha que, pretende protege-la da violência
doméstica. Não nos cabe aqui discutir a sua eficácia, mas inevitavelmente
indagar: a mulher tornou-se mais respeitável depois dela? Na constituição penal
brasileira existe lei para punir agressores em casos de violência,
independentemente do sexo das vítimas, sendo escusada, portanto, uma lei
específica; mesmo porque medidas separatistas como essa, longe de promover a
igualdade entre os sexos acentuam, ainda mais as diferenças entre eles e com
isso o estigma sobre a mulher.
Por
razões como essa, jamais poderíamos conceber qualquer forma de igualdade ou
liberdade que prescindisse da ética, entretanto, o desrespeito, a violação aos
direitos e, sobretudo à subjetividade humana ainda persistem. No caso das
mulheres, como vimos tratando, o preconceito apenas se inverte; se hoje,
questionada acerca do futuro uma adolescente revela o desejo de casar-se,
possuir um lar e filhos, será vista, no mínimo, com espanto, já que vivemos a
era da “supervalorização da mulher” e não podemos incorrer a nada que lembre
aquele passado de opressão. O seu desejo deve ser um fator preponderante, antes
de tudo porque é no embate entre querer e poder, poder e dever que temos a
concretização do que é ser livre; aquilo que nos tira da imanência e nos lança
à transcendência, e que, portanto, não deveria ser questionado, sendo o grande
ideal do ser humano.
Mas,
enfim, como ser, manter-se livre, quando a nossa afirmação enquanto sujeitos
depende do Outro tanto quanto de nós? É simplesmente inconcebível qualquer
forma de libertação na ausência da ética, e o fato da nossa subjetividade estar
ligada a um projeto moral, sinaliza a relevância do outro nesse processo, e nos
remete, mais uma vez ao aspecto duplo da liberdade feminina; se não tivesse que
lutar pelo direito à liberdade, e só posteriormente pela liberdade em si,
talvez não atribuíssem a essa uma conotação demasiado simplória, ainda hoje
associada à igualdade de direitos. De qualquer modo, isso não diminui o mérito
das mulheres, visto que não se acovardaram diante de uma sociedade opressora,
feita toda contra elas; e se não conseguiram transcender, nada é devido ao seu
sexo.
Com
base nesse histórico de lutas indagaremos por fim: será que estamos honrando a
memória das nossas predecessoras? E quanto ao valiosíssimo legado que nos
deixaram, a “liberdade”, estamos fazendo bom uso dela?
As
vezes traída pelos fatos, penso ainda não termos saído daquele estado de
ignorância e inanição, tão vil se revela a conduta de determinadas mulheres, e
num ímpeto irracional me interrogo: foi para isso que Joana D'arc arriscou sua
pele à fogueira; que a corajosa Olympe de Gouges após lutar pelos ideais
burgueses: Liberdade, Igualdade e Fraternidade acabou guilhotinada; e, mais
tarde Simone de Beauvoir enfrentou toda sorte de injúrias? Sei que a liberdade
nem sempre repousa na virtude, mas é necessário honrar a nossa história, nos
esforçar, senão para deixar um legado positivo às gerações futuras, pelo menos
preservar o que nos foi deixado.
A
nossa geração urge por um processo de conscientização, de rememoração, quem
sabe isso tire as mulheres desse novo transe e novamente as lance àquele futuro
aberto de que falava Beauvoir.
R.T.
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