PERDIDAMENTE FLORBELA
“... O meu mundo não é como o dos outros,
quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia
constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista;
sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma
que se não sabe bem onde está que tem saudades... sei lá de que!”
Florbela Espanca
A
epígrafe revela a imagem da poetisa tal qual a conhecemos, ou seja, uma mulher
arrebatada, insatisfeita, encerrada em um drama existencial incomum, este fruto
da sua “sede de infinito”, que traduz a lacerante inquietação da sua alma, e é
o que dá a tônica no seriado da TV portuguesa (RTP), Perdidamente Florbela,
escrito e produzido por Vicente Alves do Ó, e que traz a atriz Dalila do Carmo
no papel da escritora.
O
seriado é uma versão aprimorada do filme Florbela (2012) do mesmo produtor. Só
que, enquanto o filme deteve-se a uma passagem especifica da vida de Florbela
Espanca – os quatro dias que passou com o irmão Apeles em Lisboa – a minissérie
exibe uma espécie de biografia da autora, abrangendo diversos aspectos: a
infância, a escola, a escrita em verso, os casamentos e suas publicações
(poucas, visto que o conjunto da sua obra foi publicado postumamente).
Entretanto, aqueles que conhecem a sua vida e obra (conteúdo bastante extenso),
podem malograr-se pela maneira sucinta com que ele, especialmente no tocante ao
literário é apresentado. É importante, porém, frisar que se trata aqui de uma
adaptação, aliás, na minha modesta opinião, bem sucedida, uma vez que não fugiu
do seu objeto, mostrando a polêmica personalidade da autora nas suas diferentes
nuances.
Dividida
em três episódios, a minissérie se inicia com o nascimento de Florbela Espanca
em uma casa simples de Vila Viçosa (Alentejo) no ano de 1894, é onde tem origem
o seu primeiro grande conflito, a separação da mãe biológica, Antônia Conceição
Lobo. A menina será criada por Mariana Carmo Ingleza, que não podia gerar os
descendentes do marido João Espanca. Assim, o mesmo ocorrerá, dois anos depois,
com o irmão Apeles por quem Florbela, desde a mais tenra infância, devota um
imenso amor.
Ainda
nos seus primeiros anos escolares na cidade de Évora por volta de 1908, já se
evidencia a sua inclinação para a poesia e seu gosto por leituras não
recomendáveis ao público infantil, principalmente feminino. Assim, se percebe
que Florbela não é uma mulher como as outras, um ser humano como os demais, mas
sempre palpitante, “assediada pelo tormento de constantemente pedir à vida mais
do que ela pode dar”. Os seus casamentos são prova disso, ela parece sufocada
quando o encanto do encontro de duas almas é interceptado pelo cotidiano
monótono, vazio e nada aprazível a uma mulher cheia de sonhos, com alma de
poeta, que transpira, portanto, o que está além, além de si mesma, “o meu reino
fica para além”.
Nessa
incessante busca em que procura respostas para as suas interrogações, a escrita
não só lhe serve de instrumento para esse fim, como estabelece a sua conexão
com o mundo, um mundo que não é o seu, daí a sua ânsia de inspiração, de
transpor esse seu “tormento do ideal” em versos. No entanto, há momentos em que até mesmo a
escrita lhe parece inútil: “a poesia não traz nada, só o vazio”. Tantas
atribulações a torna incompreendida aos olhos dos outros e certamente explica
os seus dois divórcios e três casamentos, numa época em que à mulher não era
permitido sequer o domínio da própria voz, tanto menos divagações filosóficas.
Além
da devoção à escrita poética, o seriado mostra a felicidade de Florbela ao ver
publicado o seu primeiro poema no Jornal de Lisboa (1916). E três anos depois,
a publicação do seu primeiro livro, o Livro de mágoas (1919), publicado com a
ajuda do pai João Espanca. Porém, isso não lhe trouxe notoriedade, algo difícil
de aceitar, principalmente para alguém com um ego como o dela, que afirma serem
os poemas a sua alma, e que não pode entrega-la para ser rejeitada. Talvez por
essa razão, Florbela deixou a poesia em segundo plano, aplicando-se às
atividades domésticas, às suas aulas e traduções, assim justificando-se: “os
portugueses estão saturados de versos e eu saturada de os fazer”.
Outro
episódio marcante na vida de Florbela Espanca retratado foi a morte do irmão
Apeles em um desastre aéreo, fato que fez a poetisa entrar em choque e passar
meses em uma clínica de reabilitação. O amor pelo irmão e o seu pedido de que
não abandonasse a escrita a fez voltar a escrever. Para consagrá-lo, principiou
a escrita de um livro de contos cuja temática era a morte, o mesmo seria
publicado postumamente com o título “As máscaras do destino”. É com essa cena
que termina a terceira e última parte do seriado, deixando de fora um capítulo
importantíssimo na história de Florbela, a sua morte ou suicídio, que, ao
contrário do que muitos pensam, não é o fim da poetisa, mas o começo, do seu
reconhecimento como artista, não uma artista qualquer, mas talvez a mais
esplêndida poetisa que Portugal já viu.
Enfim,
ignorando esse pequeno detalhe, além de certa discrepância entre determinados
fatos e seu tempo cronológico (deslize grave em produções de cunho biográfico),
o seriado traçou um retrato da poetisa, compatível com aquele que já
conhecíamos, uma mulher de espírito atormentado, porém intensa, vibrante, cuja
busca por uma identidade acalenta a “sede de infinito”, que é simultaneamente
sua ruina e salvação, talvez daí o título... Perdidamente Florbela.
R.T.
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