editorial
Racismo e sorvete
Brasil, uma
terra que foi e ainda é palco de grandes embates acerca de questões raciais.
Uma terra que teve seus habitantes dizimados física, cultural e ideologicamente
por uma raça estrangeira com o discurso da salvação de um “povo bárbaro” do seu
pobre estado primitivo. Diante das gigantescas proporções dessa terra, as
atrocidades aqui cometidas não foram menores. Tamanhos intuitos exigiam mão de
obra, insuficientes os nativos, seria necessário cruzar o oceano para destituir
outros nativos das suas terras, presenteando-os com o solado da bota de uma raça
nobre, com a subjugação completa do seu corpo e da sua mente, com a humilhação
e a inferiorização. Para não falar de tantos outros povos que aportaram aqui e
se envolveram nesse processo de formação da grande miscigenação que formou a híbrida
raiz étnica do povo brasileiro.
Essa semana, sentado com minha
namorada na mesa em frente a uma sorveteria, a dona do estabelecimento nos
tomou por confidentes. Cochichando expressou sem cerimônia (como que tomada por
uma certeza de semelhança de pensamento conosco), quem sabe por sermos brancos,
uma série absurda e deprimente de impropérios e racismos da mais vil estirpe.
Eu fiquei pasmo. Na mesa ao lado, a razão do discurso entre dentes da nobre
senhora: um casal formado por uma loira e um negro tomava sorvete. Bestificado
como estava, não disse palavra, ao meu silêncio ela não recuou, e enquanto não
culminou com a última frase: “Deus me livre de morar em uma casa com um vizinho
preto”, ela não calou seu vergonhoso discurso. Esse tipo de coisa nos abala de
maneira incongruente visto que o que vemos na televisão já seria suficiente
para não nos surpreendermos mais, porém a proximidade e a consciência da permanência
silenciosa desse tipo de preconceito no seio da sociedade não deixa de ser
alarmante.
Ainda é possível ser pior, pois, a
preferência do problema não sobrecai unicamente na cor da pele, não, antes ela
tem um contingente ainda maior e mais diversificado, mas, que por relações
arbitraria e negativamente íntimas, se junta de certo modo à questão racial: a
pobreza. Antes da cor da pele a pobreza já é definidora em qualquer parte. É o
cosmopolitismo do pobre como salienta Silviano Santiago. Se preto e pobre, tem
o currículo infalível para a discriminação e o preconceito encrustados e
invariavelmente espalhados pelos quatro cantos do mundo.
A ação discriminadora da polícia no
Rio de Janeiro que tanto “chocou” pessoas Brasil afora não é senão a ponta do
iceberg. Ir preso por estar sem dinheiro é muito menos aviltante do que ser
preso por estar com a pele que nasceu. Mas… pois é, a razão está fincada nas
duas coisas. Realmente não há como uma situação ser mais aviltante.
Fiquei pensando comigo, estivesse eu
no Rio, indo para Ipanema, e fosse a dona da sorveteria um PM, os pouco menos
de 50 reais que tinha no bolso não seriam motivo de prisão, claro, mas seriam
dignos de uns bons tabefes.
J.N.Jr.
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