sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Editorial - Ed.IV

editorial

Racismo e sorvete

Brasil, uma terra que foi e ainda é palco de grandes embates acerca de questões raciais. Uma terra que teve seus habitantes dizimados física, cultural e ideologicamente por uma raça estrangeira com o discurso da salvação de um “povo bárbaro” do seu pobre estado primitivo. Diante das gigantescas proporções dessa terra, as atrocidades aqui cometidas não foram menores. Tamanhos intuitos exigiam mão de obra, insuficientes os nativos, seria necessário cruzar o oceano para destituir outros nativos das suas terras, presenteando-os com o solado da bota de uma raça nobre, com a subjugação completa do seu corpo e da sua mente, com a humilhação e a inferiorização. Para não falar de tantos outros povos que aportaram aqui e se envolveram nesse processo de formação da grande miscigenação que formou a híbrida raiz étnica do povo brasileiro.
Essa semana, sentado com minha namorada na mesa em frente a uma sorveteria, a dona do estabelecimento nos tomou por confidentes. Cochichando expressou sem cerimônia (como que tomada por uma certeza de semelhança de pensamento conosco), quem sabe por sermos brancos, uma série absurda e deprimente de impropérios e racismos da mais vil estirpe. Eu fiquei pasmo. Na mesa ao lado, a razão do discurso entre dentes da nobre senhora: um casal formado por uma loira e um negro tomava sorvete. Bestificado como estava, não disse palavra, ao meu silêncio ela não recuou, e enquanto não culminou com a última frase: “Deus me livre de morar em uma casa com um vizinho preto”, ela não calou seu vergonhoso discurso. Esse tipo de coisa nos abala de maneira incongruente visto que o que vemos na televisão já seria suficiente para não nos surpreendermos mais, porém a proximidade e a consciência da permanência silenciosa desse tipo de preconceito no seio da sociedade não deixa de ser alarmante.
Ainda é possível ser pior, pois, a preferência do problema não sobrecai unicamente na cor da pele, não, antes ela tem um contingente ainda maior e mais diversificado, mas, que por relações arbitraria e negativamente íntimas, se junta de certo modo à questão racial: a pobreza. Antes da cor da pele a pobreza já é definidora em qualquer parte. É o cosmopolitismo do pobre como salienta Silviano Santiago. Se preto e pobre, tem o currículo infalível para a discriminação e o preconceito encrustados e invariavelmente espalhados pelos quatro cantos do mundo.
A ação discriminadora da polícia no Rio de Janeiro que tanto “chocou” pessoas Brasil afora não é senão a ponta do iceberg. Ir preso por estar sem dinheiro é muito menos aviltante do que ser preso por estar com a pele que nasceu. Mas… pois é, a razão está fincada nas duas coisas. Realmente não há como uma situação ser mais aviltante.
Fiquei pensando comigo, estivesse eu no Rio, indo para Ipanema, e fosse a dona da sorveteria um PM, os pouco menos de 50 reais que tinha no bolso não seriam motivo de prisão, claro, mas seriam dignos de uns bons tabefes.


J.N.Jr.

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