Editorial
Ao invés de fazer aqui um editorial
tradicional, comentando e apresentando os textos que compõe esse número da
revista, sem prejuízo, visto que não é imprescindível para a compreensão dos
mesmos, decidimos utilizar o espaço para divulgação de um problema urgente que
se expressa por um texto que advém de uma continuidade, depois dos textos «A
Biblioteca I» e «A Biblioteca II» publicados anteriormente no jornal «A
Indaga», vamos para o número III, o texto se justifica por si.
A Biblioteca III
Antes de tudo é notável, se
um texto chega ao número três, pode-se inferir duas coisas: ou o que ele exprime
agradou e seu sucesso exigiu o desdobramento em outro e mais outro, ou o que
ele reivindica não foi alcançado e se fizeram necessários continuações com
reiteração de velhos argumentos e criação de novos que surgem com a urgência da
necessidade. Infelizmente devemos classificar esse texto como pertencente a
essa segunda categoria. Relembremos os motivos do primeiro e segundo para
compreendermos a tese que se mantém.
Uibaí. Somente essa palavra
carrega, historicamente falando, algumas conhecidas características que foram
se cristalizando na mente do povo da região e conhecidos: “terra de gente
inteligente”, “povo letrado, educado”, “cidade de universitários”, “primeiros
lugares em concursos Brasil afora”. Expressões que não são estranhas ao se
referirem a Uibaí, comuns até. Por associação não seria nada estranho também
relacionar tais características a outras de mesmo tema, âmbito, ou correlação
automática. Pois bem, que tipo de estabelecimento estaria mais arraigado às
características imputadas a essa cidade? Pensemos: que lugar, ainda que não por
obrigatoriedade, está mais próximo das ideias de educação, cultura letrada,
inteligência? Não é difícil, qual dos estabelecimentos públicos mais se encaixa
em termos de assimilação e simbologia a essas determinadas qualidades
atribuídas ao nosso povo do pé da serra? Isso, meu caro leitor, vê-se que o
título é autoexplicativo. A biblioteca.
Antes que invoquem deus no
céu e me atirem pedras, deixe me esclarecer: estou dizendo que só por meio de
livros se adquire educação? Estou dizendo que a biblioteca é algo
imprescindível para adquirir conhecimento? Estou dizendo que a cultura letrada
e tradicional é superior a cultura oral e popular? Não, não e não. Não seria
razoável. Seria uma insanidade se exprimisse tais afirmações. Mas, seria por
isso, válido o oposto extremo? Tampouco. É nesse ponto que desejo chegar.
Assim como seria estúpido e
incoerente exaltar as benesses da biblioteca como valor único e inquestionável
de cultura e educação, também o é, desqualificá-la completamente, abandonando
todo e qualquer cuidado com essa instituição. Foquemos nessa estupidez.
Sou filho de Uibaí, aqui
nasci e vivi, me eduquei, e digo sem receio hiperbólico: não conheço nenhuma
outra instituição pública tão sucateada, esquecida e abandonada quanto a
biblioteca. A biblioteca municipal, as bibliotecas escolares vivem uma situação
extremamente diferente num sentido, mas sofrem e culminam nos mesmos males: o
abandono, o descaso, o esquecimento. As bibliotecas escolares recebem
frequentemente do governo federal, novas contribuições para seus acervos por
meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), do MEC, criado em 1997.
Esse programa não só envia regularmente livros atualizados como também dvds,
revistas e jornais. Ao contrário da biblioteca municipal de Uibaí que não tem
uma revisão ou mesmo acréscimo nos seus acervos, praticamente desde sua
criação, as bibliotecas escolares não têm muito do que reclamar nesse aspecto.
Porém, o que as afeta igualmente é a mesma coisa; se não é valorizada, se o
poder público ou escolar não vê na biblioteca importância absolutamente
nenhuma, por que se preocupar em cuidar desse material? A prática de descaso é
a mesma. Como citei no primeiro texto veiculado pelo jornal «A indaga», não é o
caso de que se exija que um bibliotecário formado exerça a função, visto que a
quantidade de profissionais nessa área em nossa região torna inviável essa
necessidade, mas, pelo menos, de alguém que está lá “para essa função” e não
simplesmente por não estar em nenhuma outra, como acontece. Por ironia, a ideia
predominante no nosso município é de que não se precisa de nenhuma qualificação
para cuidar de uma biblioteca, nem mesmo interesse pelo que ela guarda e
representa, a exigência parece ser esta: se você não está fazendo outra coisa,
se não se mostrou necessário em nenhum serviço, vai para a biblioteca. É
professor, está excedente sem dar aulas? Biblioteca. É funcionário público,
está sem se enquadrar em nenhuma outra função prática e precisa ter um emprego
mesmo assim? Biblioteca. O que vão fazer lá? Cumprir seu horário, aquecer a
mobília envolto pelo mais estranho universo para si: livros. Por mais absurdo
que isso possa parecer, não é exagero, é, de fato, o pensamento dessa terra que
se diz letrada e de gente inteligente. Não é preciso esforço algum para saber o
que essa prática causa. Desinteresse absoluto pela leitura e pelos livros,
empréstimo sem critério e sem controle, perda de exemplares, sucateamento,
abandono. Está lançado o desafio, qualquer leitor está convidado a sair de casa
e fazer uma visita às nossas bibliotecas, escolares ou municipal. Olhem,
prestem atenção, verifiquem o ambiente, a infraestrutura, o acervo, a equipe, o
meio e métodos de catalogação e empréstimos, o registro de sócios e de
material. Depois do susto inicial, depois de recobrar o tino ante tamanho
descalabro me responda com sinceridade: qual o sentido que há na propalada
cultura de um povo que permite que isso aconteça? Que ano após ano, e mesmo com
outros alertas como os textos anteriores a esse, não move uma pena para alterar
esse vergonhoso estado de coisas? Difícil responder a estas perguntas. É
incoerente, mais ainda, é inconcebível que isto seja assim. É inaceitável para
qualquer lugar, mais ainda para uma cidade que se avulta com uma fama que pouco
a pouco vem se mostrando tão estúpida quanto mentirosa.
Mas, qual a solução?
Primeiro é preciso de uma tomada de consciência. Tomar consciência do valor da
biblioteca, da sua importância. A partir daí, mudar drasticamente de postura. A
atenção a biblioteca deve ser equivalente a seu valor, deve-se valorizar sua
constituição, seu conteúdo, o material e seu uso. Consequentemente selecionar ou
abrir concurso para que alguém com qualificação necessária, cuide desses
ambientes. A justificação de que não há como remunerar alguém, é mentirosa.
Não só há uma lei que
institui as bibliotecas escolares (lei 12.244/10), como sua manutenção e
preservação deve ser feita adequadamente e segundo a cartilha da campanha “Eu
quero minha biblioteca” “As despesas com a remuneração desse profissional devem
ser oriundas das receitas municipais, mas também podem ser inseridas nos 40%
referentes à “manutenção e desenvolvimento do ensino” previstos no Fundeb.” Ou
seja, não há justificativa para que as coisas permaneçam como estão.
Faço aqui uma convocação a
todos que concordam em algum aspecto do que esse texto fala, para exprimirem
também a sua indignação, fazendo com que essa voz de três textos não seja mais
solitária. Visitem as bibliotecas, questionem, entrem no site da campanha “Eu
quero minha biblioteca” que por enquanto só tem a mim cadastrado do nosso
município, cadastrem-se. Leiam a cartilha e os demais documentos e materiais
disponíveis. Divulguem nas redes sociais. Lembrem-se que há possibilidades
reais de mudar essa realidade, há acervo, há locais, há recursos. O que falta,
é interesse, é visibilidade, é revisão de valores. Façamos com que não seja
necessário um Biblioteca IV.
J.N.Jr.
Links para os sites citados
abaixo:
Cartilha com orientações da
campanha:
http://www.euquerominhabiblioteca.org.br/materiais/orientacoes.pdf
LEI Nº 12.244 DE 24 DE MAIO
DE 2010.
http://www.euquerominhabiblioteca.org.br/materiais/lei_12.244_2010.pdf
Material de orientação:
http://www.euquerominhabiblioteca.org.br/mobilize_se#
Material para campanha e
mobilização:
http://www.euquerominhabiblioteca.org.br/materiais/material_divulgacao.zip
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