quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Editorial - Ed.III

Editorial

Já disseram uma vez, que vivemos numa sociedade de etiquetas, crítica feroz à superficial maneira de representar-se a si representando uma ideologia de mercado. Egos definidos por marcas, por etiquetas, enfim, não é atoa que uma música atualmente popular dispara «It's not about the money, money, money; We don't need your money, money, money, We just wanna make the world dance; Forget about the pric etag». Longe de avaliar se a música realmente só quer fazer o mundo dançar, esquecendo as etiquetas, seria justo questionar se neste momento em que estamos vivendo, ainda é a etiqueta, ou o desejo pelo seu poder definidor de status e classe, o problema.
Me parece válido observar que (sei que haverá detratores dessa opinião por causa da influência da mídia) esse problema nasce de uma escolha individual, própria do arbítrio de quem a faz. Por mais imbecil que seja, na sociedade democrática o indivíduo pode ser o que quiser, inclusive imbecil (desde que imbecil para si). Por outro lado, nos últimos anos um problema bem maior começou a tomar vulto e aparentemente se encontra no seu auge: o problema do etiquetador. Este problema supera de longe o outro, exatamente pelo seu princípio invasivo, arbitrário, impositivo. Antes, se escolhia a etiqueta enquanto representação própria, em nome de alguma relevância social num meio igualmente semelhante de ideias. O que escolhia, sofria ou usufruía da sua própria ação. Hoje independente das escolhas individuais, o que prevalece são as escolhas alheias, somos etiquetados com grampo de caixote. Nem preciso dizer que, se antes as escolhas eram imbecis e quase sempre, mais rebaixavam do que elevavam a imagem do indivíduo que a escolhia, uma vez escolhidas por outrem, as etiquetas não são somente depreciativas no nível da irreflexão, mas caluniosas e ofensivas.
Aliado a esse problema, que não é novo, mas somente uma reformulação adaptada às novas tecnologias, temos a própria tecnologia como trincheira dos etiquetadores, não mais aqueles que gritavam bordões racistas nas ruas nos anos 20, que independente da ação criminosa que cometiam estavam expostos, de cara limpa (não é uma justificativa mas o ponto não é esse). A internet permitiu a toda espécie de covardes o artifício que faltava, a possibilidade da boçalidade totalmente anônima. O boçal anônimo sofre de um ódio patológico, odeia a todos por que se odeia (seu discurso de ódio é geral e abrangente), inferioriza a todos por que é inferior, opina sobre tudo por que não tem base para comentar nada. Anonimato lhe dá força e ímpeto, não cede, não retira, não desanima, não desiste. Sua insistência é digna de Sísifo, e enquanto não rolar a pedra da maledicência para cima da montanha, não renuncia.
É certo que nem todos se deixam afetar por semelhantes canalhas, que a maioria com alguma consciência, não se abala com qualquer etiqueta, venha de quem vier e com o quê. Seguros de si, prosseguem. Mas infelizmente, nem todos são assim e crescem os casos de pessoas injuriadas, escarnecidas, que se suicidam ou desenvolvem patologias psicológicas e/ou sociais em conseqüência de acontecimentos como esse. O ideal seria que todos desenvolvessem o mínimo de segurança de si como vacina para esses animais anônimos, e, uma vez cientes do próprio valor e importância, se for para terem uma etiqueta, um rótulo, uma característica, que seja por escolha autônoma.


J.N.Jr.

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