Editorial
Já disseram uma vez, que vivemos
numa sociedade de etiquetas, crítica feroz à superficial maneira de
representar-se a si representando uma ideologia de mercado. Egos definidos por marcas, por
etiquetas, enfim, não é atoa que uma música atualmente popular dispara «It's not about the money, money, money; We don't need
your money, money, money, We just wanna make the world dance;
Forget about the pric etag». Longe de
avaliar se a música realmente só quer fazer o mundo dançar, esquecendo as etiquetas, seria justo questionar se neste
momento em que
estamos vivendo, ainda é a etiqueta,
ou o desejo pelo seu poder definidor de status
e classe, o problema.
Me parece válido observar que (sei
que haverá detratores dessa opinião por
causa da influência da mídia) esse problema nasce de uma escolha individual, própria do arbítrio de quem a faz. Por mais
imbecil que seja, na
sociedade democrática o indivíduo
pode ser o que quiser, inclusive imbecil (desde
que imbecil para si). Por outro lado, nos últimos anos um problema bem maior começou a tomar vulto e aparentemente se encontra
no seu auge:
o problema do etiquetador. Este
problema
supera de longe o outro, exatamente
pelo seu
princípio invasivo, arbitrário,
impositivo. Antes,
se escolhia a etiqueta enquanto
representação
própria, em nome de alguma relevância
social num meio igualmente semelhante de ideias. O que escolhia, sofria ou
usufruía da sua própria ação. Hoje independente das escolhas individuais, o que
prevalece são as escolhas alheias, somos etiquetados com grampo de caixote. Nem
preciso dizer que, se antes as escolhas eram imbecis e quase sempre, mais
rebaixavam do que elevavam a imagem do indivíduo que a escolhia, uma vez
escolhidas por outrem, as etiquetas não são somente depreciativas no nível da
irreflexão, mas caluniosas e ofensivas.
Aliado a esse problema, que não é
novo, mas somente uma reformulação adaptada às novas tecnologias, temos a própria
tecnologia como trincheira dos etiquetadores, não mais aqueles que gritavam
bordões racistas nas ruas nos anos 20, que independente da ação criminosa que
cometiam estavam expostos, de cara limpa (não é uma justificativa mas o ponto não
é esse). A internet permitiu a toda espécie de covardes o artifício que
faltava, a possibilidade da boçalidade totalmente anônima. O boçal anônimo
sofre de um ódio patológico, odeia a todos por que se odeia (seu discurso de ódio
é geral e abrangente), inferioriza a todos por que é inferior, opina sobre tudo
por que não tem base para comentar nada. Anonimato lhe dá força e ímpeto, não
cede, não retira, não desanima, não desiste. Sua insistência é digna de Sísifo,
e enquanto não rolar a pedra da maledicência para cima da montanha, não
renuncia.
É certo que nem todos se deixam
afetar por semelhantes canalhas, que a maioria com alguma consciência, não se
abala com qualquer etiqueta, venha de quem vier e com o quê. Seguros de si,
prosseguem. Mas infelizmente, nem todos são assim e crescem os casos de pessoas
injuriadas, escarnecidas, que se suicidam ou desenvolvem patologias psicológicas
e/ou sociais em conseqüência de acontecimentos como esse. O ideal seria que
todos desenvolvessem o mínimo de segurança de si como vacina para esses animais
anônimos, e, uma vez cientes do próprio valor e importância, se for para terem
uma etiqueta, um rótulo, uma característica, que seja por escolha autônoma.
J.N.Jr.
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