Diário da pandemia. Dia VI.
23/03
Acordei muito cedo. As noites aqui costumam ser assim: vai-se dormir despreparado por que o calor é terrível e de madrugada o frio lhe acorda congelante. Detesto rádio, temos aí o único problema da roça. Meu pai acredita que, uma vez lá, por alguma razão divina, o rádio não pode ser desligado sob nenhuma circunstância, seja dia, seja noite ou madrugada. Por volta das quatro da manhã eu ouvia ao longe, músicas dos anos sessenta entremeadas por comentários frívolos do locutor. Comentários tão pessimamente engendrados, uma mistura de senso comum com asneira, que eu pedia para a música recomeçar.
As luzes acesas da cozinha atraíram dezenas de insetos que cansaram de caminhar em cima de mim enquanto tentava dormir e agora faziam um voo desordenado em torno da luz. Apaguei-a. Resquícios de uma claridade tímida começavam a surgir na distância, pras bandas da Baixa-verde. A terra molhada da chuva noturna exalava um cheiro que é como ternura, daquele que a gente inspira e sorri. Coisas de gente do interior por natureza e vocação. Fiz um cuscuz, esquentei um torresmo e comi sentado na cadeira de balanço da área. Um "sofrê" pousou num tronco seco onde meu pai encosta a enxada, o contraste do seu laranja e preto com o verde e a ferrugem da velha ferramenta, mereciam uma foto. Ouvia-se um inhambú cantar bem longe.
Nada disso combinava com quarentena, pandemia e desgraça generalizada.
“This fine old world, it keeps spinnin' around" diz Sinatra, então vamos lá. A internet péssima me afasta temporariamente da enxurrada de desgraças e ignorância do whatsapp. Tem de tudo: COVID19 é com certeza uma maldição, é a porra de um teste divino (essa é a pior de todas). A cura está no Caiutaroba. A cura é gargarejar água de limão morna de manhã pulando de um pé só e cantando o hino nacional de trás pra frente. Ou os clichês que me fazem querer pegar logo essa droga e morrer. "Precisamos nos afastar agora para nos abraçar depois". Eu juro que gostaria de enfiar uma faca de pão cega no bucho de quem escreveu essa frase. Melhor estar sem internet mesmo. Passei a tarde lendo Camus. Voltei para casa com minha sobrinha e o namorado dela. As ruas vazias são estranhas. As ruas com gente (ainda) nos dão ódio. É um tempo de sentimentos confusos.
Revisei dois relatórios e deitei. O sono não veio logo. Fiquei esperando ele chegar ainda ouvindo na minha cabeça a melodia, será verdade Frank? ... You're ridin' high in April, shot down in may, but I know I'm gonna change that tune, when I'm back on top, back on top in june....
Jr.
Me lembra Guimarães Rosa,esta sua narrativa...
ResponderExcluirSobre o contexto atual,os impactos serão profundos,porém,assim que a vida começar a normalizar,a maioria das pessoas seguirá seu rumo:algumas continuarão indiferentes,outras,verão o mundo por outro prisma.Mas é só uma questão de prioridades,já que nem sempre o que é mais importante para mim seja também o essencial para ti.
E como diz Sinatra:"É a vida..."
Quem és? rs
Excluir"Eu sou a Cabra Cabrês...!Rsrs!
ExcluirSoy Aracele.Rsrs.
Rs. que bom. Está acompanhando os textos? Achei muito interessante sua suposição de Rosa, mas, precisaria de muitas vidas para escrever de modo parecido. Agradeço mesmo assim a comparação elogiosa.
ExcluirEstou acompanhando,sim!
ExcluirGosto muito da descrição dos elementos naturais como também da alusão que vc faz a outros assuntos!Muito legal mesmo!Vc é um cronista dos ótimos!Parabéns!