Diário da pandemia. Dia XII.
29/03
Resolvi pular um dia? Sim. Não aconteceu nada ontem e hoje aconteceu tudo, então, esqueçamos esse dia. Tinha ido dormir por volta das duas e meia da manhã me sentindo muito bem. Não imaginava eu, que acordaria com a sensação perfeita de que tinha sido atropelado por uma manada de búfalos. Abri os olhos e instantaneamente percebi que alguma coisa estava errada. Meu esterno parecia esmagado, as clavículas e escápulas, pareciam rachadas. Meu dedos tinham uma ligeira aparência de terem sido esmagados com um alicate. Os pulsos inchados, doíam vertiginosamente. Os joelhos não tinham força para sustentar o corpo e os pés doíam como se pisados por um cavalo com ferradura. O suor no travesseiro era provavelmente resultado da febre, meus olhos estavam em chamas. Podia bem ser um pesadelo; fechei os olhos para tentar acordar em outra situação. Não funcionou. Cambaleante como um ébrio ensaiei alguns passos até a porta, da porta até a cozinha, da cozinha até o banheiro. Assim mesmo, nessa labuta.
Tinha fome. Porém os engulhos amargos não me permitiam pensar em comer. Peguei um copo com água e consegui beber metade em meia hora, sugando a água como menino que bebe refrigerante pela primeira vez. Tomei um remédio e depois de uns 40 minutos a dor se tornou suportável. Tinha combinado de almoçar com minha namorada na casa dela. Ah!, Que ilusão. Ficaria feliz de conseguir caminhar até a calçada e voltar sem desmoronar no caminho. Desmarquei o combinado. Ela mandou almoço para mim por um mototaxista, mesmo com meus alertas de que era inútil. Não daria para comer. Tentei trabalhar mas a dor não me deixou concentrar. Desisti e abri o Netflix. Algumas pessoas me sugeriram o filme "O poço", resolvi assisti-lo mesmo sabendo que aquela mensagem negativa da sociedade não ia alegrar em nada esse dia de merda. O filme é muito bom, não darei spoilers. Enquanto o remédio fazia efeito, consegui assistir e tentei comer alguma coisa. Passei meia hora tentando comer um ovo cozido, em vão. Comi três quartos de um pedaço de torta menor que um cartão de crédito. Vitória. Esse foi meu alimento até o meio da tarde. A febre começou a voltar junto com a dor escruciante. Tomei o remédio outra vez, para poder terminar o filme. Agora à noite, consegui comer o restante da torta e alguns caroços de feijão, com um pedaço de carne. A luta foi fenomenal, briguei com esse prato como um gladiador e derrotei-o.
Por hora esse é o caso. Pura ironia. Recluso por causa do corona eu resolvo me preparar adoecendo. Não tem graça. Nada de política, filosofia ou religião, hoje. A dor sempre fala mais alto. “Saúde dos seres que se fanam” como dizia Augusto dos Anjos. Vou tentar dormir e espero que seja mesmo um pesadelo. Se estiver melhor amanhã, voltamos à profundidade das desgraças atuais. Por enquanto, desejem-me sorte. Boa noite.
Jr.
Estimo as melhoras!
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