segunda-feira, 23 de março de 2020

Diário da pandemia. Dia V.

Diário da pandemia. Dia V.
22/03

Vê-se claramente que não temos nenhuma exatidão ao medir o sofrimento. Nem nosso, nem alheio. A Itália chega à casa das 7 centenas de mortes diárias, pessoas em retidão nos seus domicílios assistem a morte do pai, da mãe, do irmão, e veem-se na obrigação de prolongar essa vigília por horas, dias, em que se impregnam da morte presente, latente, sinistra. Outros têm que fazer ouvidos moucos ao clamor dos anúncios que os interpelam a irem para casa, que casa? Estão em "casa". E a ironia trágica dessa ordem soa atroz. Não se ouve dizer nada da África, embora todos os países tenham casos registrados, um continente inteiro parece não existir. O momento é difícil mas esse silêncio que estratifica, segrega e escolhe quem e o quê importa, é macabro.
As desgraças continuam. Não pensem que por que um viruzinho novo surge as pessoas pararam de bater seus veículos uns nos outros ou em coisas, de fraturarem crânios e clavículas, de se afogarem, assassinarem, caírem, sufocarem, morrerem de outros tantos modos e adoecerem de outras tantas doenças. Tudo continua e continuará. Não se apressem, não se zanguem, não esperneiem, tem morte para todos.
O humor hoje tá show hein? Vim para a roça desanuviar a mente desses pensamentos. Ver o mato verde, as corujas que já tem mais dois buracos lá no fundo perto da cerca, respirar ar puro, tomar uma cerveja na rede entre sorrisos, ora de inocência passageira, ora de apreensão. Não acompanhei mais o torneio de candidatos pois a internet aqui é péssima. Estou relendo "A peste" de Camus, leitura singular para o período, embora angustiante. Deveria estar lendo Jane Austen ou Conan Doyle, algo mais leve.
Assei uns pedaços de carne, a lua surgiu entre nuvens. De madrugada, um gato procurava restos entre o tanque e o Juazeiro. Ah bichano, tu não sabe de nada.
Jr.

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