sábado, 28 de março de 2020

Diário da pandemia. Dia X. 27/03.


Diário da pandemia. Dia X.

27/03

Três dias depois de pregar o Sermão de St. Antônio em São Luís do Maranhão, Vieira parte para Portugal em segredo, com o intuito de encontrar uma salvação para os índios brasileiros que estavam sendo dizimados. Vinham sendo muito tempo, visto que isso data de 1654. Infelizmente ele não conseguiu a solução. Embora tenha lutado muito. Ficou então para a posteridade esse libelo que é a reflexão partida de Mt 5[:13]. Vos estis sal terrae. A metáfora é a seguinte: O sal deve evitar a corrupção, o perecimento. Estando pois a terra corrupta, ou o sal não salga, ou a terra não se deixa salgar. A palavra do pregador é o sal que deve evitar a corrupção da fé. Então, se falha o pregador, é ele mesmo o sal que não salga, não prega a doutrina. Se o ouvinte não quer receber a doutrina, é ele a terra que não se deixa salgar; agem de acordo com seus interesses pessoais. Que é isso senão o nosso mundo? Com esses pensamentos, iniciei o meu dia. Dia quente, sol ardendo logo de manhã cedo. Planejei tirar umas pimentas, mas passei o dia tão ocupado que (protelando) acabei não fazendo. Dia estranho, sem grandes acontecimentos. Trabalhei, parei para almoçar, voltei ao trabalho e só fiz uma pausa por volta das 17 horas, para ler um pouco. Cheguei na página 317 como o início desse relato sugere. Também recebi algumas manifestações bem simpáticas sobre os textos desse diário, um alento para continuar.
Ainda no ímpeto de evitar o ódio, acompanhei com muito cuidado e parcimônia, as notícias do dia. O governo, depois de tentar dar um cobre azinhavrado para a população afetada pela crise, sob pressão popular aprovou os 600 reais. Fico imaginando eu, qual será a burocracia para consegui-los. Comprovar a falta de renda, comprovar que está com a capacidade pulmonar abaixo dos 39,5% (os fiscais ficarão com uma vela a meio metro de distância e aqueles que não conseguirem apagar com uma ou duas sopradas, vão para a próxima etapa). Vai ser algo assim. Numa outra notícia, a repórter fala de alguém que morreu e que depois disso teve uma discreta melhora. Com certeza, a morte deve ser uma melhora para a vida de muita gente. Pastores berram nas redes sociais por causa do fechamento de templos e igrejas. Aqui voltamos à minha reflexão matutina. São esses homens o sal da nossa terra? pregam eles a doutrina da fé ou a égide dos seus interesses próprios? E as pessoas relativizando a morte?. Em uma ou duas dessas notícias, representantes da elite nacional falam em "apenas 15 mil". O presidente do país também relativiza, mas, como já comentei, este o faz por pura coragem e determinação e nunca por ser um canalha despreparado. Como está o nosso mundo onde o sal não salga e a terra não se deixa salgar? Santo Agostinho, citado por Vieira, fala sobre os homines pravis, os desejos perversos do homem, que dominado pela cobiça, devora seu irmão. O que vemos nesses relatos, não é senão isso: a individualidade atroz sustentada por pregadores que exultam o mal(sal que não salga) e pessoas que não querem ouvir o que não satisfaz seus interesses íntimos e pessoais(terra corrupta). Agostinho porém, continua no Psalmum XXVIII, dizendo que do mesmo jeito que usam de crueldade com os pequenos, aparelham a contenda da voracidade dos grandes. O maior preda o menor. Aqui no Brasil a coisa anda ao contrário. E quando o menor, ignorante se entrega como presa? E quando o menor ignora que, exultando o maior, não faz senão a armadilha em que ele mesmo vai cair? Os aplausos ecoam para o presidente (justos), e para a bela elite que, em carreata, exige o retorno ao trabalho e a morte lenta e dolorosa dos seus empregados. Um deles disse com muita tranquilidade “você tem mais medo do desemprego ou de morrer doente?” Temos aí um bom cristão.
O mote desse sermão de Vieira é fazer uma troca, em vez de falar aos pregadores e aos “fiéis”, ele direciona a palavra dura aos peixes. Melhor mesmo falar aos peixes, não por que servem bem à metáfora ou por serem incapazes de Graça e Glória como disse Vieira, mas porque não são hipócritas.
Jr.

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