sexta-feira, 27 de março de 2020

Diário da pandemis. Dia IX.

Diário da pandemia. Dia IX.
26/03

"Do demônio defendei-vos com a cruz; os homens põem-vos nela." Diz Vieira na página 205. Sente-se o quanto a língua portuguesa é magnífica quando manuseada por um mestre. Iria ler cem páginas ontem, resguardando essa maravilha para durar mais. Fui dormir na 226 pela imperiosa necessidade. É difícil dizer "eu sei escrever" perto desses sermões. Qualquer coisa escrita perto deles não parece linguagem, parece mímica lexical, é rudimentar demais. Escrever depois de ler Vieira, é como arrotar depois de ouvir Björling ou Pavarotti. Portanto, é na minha pequenez rudimentar que escrevo essas linhas.
Vieira não é apenas magnífico na forma, onde a estrutura frasal entra em consonância melódica com a escolha perfeita das palavras. As ideias também estão inseridas nessa onda simétrica. Servem à forma como a forma as serve. Como num tango o bom dançarino desliza prevendo o movimento de sua consorte, as palavras do texto de vieira dançam com as ideias, como se tivessem nascido assim e só respondessem a uma programação divina.
Até perto do meio dia apenas li. Depois do almoço fui tentar configurar os equipamentos para fazer uma live com meus alunos. Inocente, quem sabe arrogante, julguei que seria coisa simples. Errado. Da tarde até a noite tentei possibilidades diferentes e nenhuma foi satisfatória. A internet do município não tem capacidade de transmissão, apenas (e olhe lá) de recepção. Depois que cansei de apanhar de Felipe Neto, tendo chegado à noção de que preciso de um tripé para o celular, desisti temporariamente. Amanhã tento novas possibilidades. Minha preocupação é apenas por que sei da saudade que meus alunos estão sentindo. Devem estar se remoendo de aflição por não me verem por duas semanas. Certeza.
Agora depois de assumir que nosso presidente é o que poderia haver de melhor para esse país, minha vida ficou muito mais tranquila. Nosso mito não dá trégua ao demonstrar sua excelência. O mundo inteiro, inteiro, recluso, fechado, com medo, e somente esse herói para decretar e convidar a coragem nacional. Se um vidro blindado segura balas, por que não segurariam um mísero vírus? Essa incrível genialidade me surpreende. Qual o maior problema? adoecer agora e correr risco de morte (para si e para seus próximos) ou tangenciar/perder o emprego ficando possivelmente saudável em casa e ter que correr atrás do prejuízo depois? Não seja egoísta, seu patrão também precisa viver, (ele não sabe levantar uma palha sozinho). Você vai ser irresponsável ao ponto de deixá-lo assim? Ele pode comprar um respirador, pode montar uma UTI em casa, você vai deixar ele manusear todos esses equipamentos sozinho? Não há possibilidade. Quem vai dirigir? quem vai comprar papel higiênico? Quem vai enfrentar o perigo das multidões, dos ônibus, das ruas por ele? Tenham consciência! O país não pode parar, pelo menos não para todo mundo. Sejamos humildes e serenos. O novo programa do governo vem aí: “Meu patrão, minha vida”.
Jr.

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