sexta-feira, 20 de março de 2020

Diário da pandemia. Dia II.

Diário da pandemia. Dia II.
19/03


Acordei como quem não está em quarentena e como quem está evitando a todo custo explicar que a nominação é mais cultural do que semântica. Hoje o povo deve estar mais contido, supus, ao ver o vazio da rua incomum naquele horário. Ledo engano. Nem pensei direito. Hoje provavelmente começa a agonia ignorante (pior das agonias). O povo, na sua face pronominal “nós”, ou na sua locução com artigo definido feminino “a gente”, não sabe o que fazer mas finge que sabe. Na dúvida, tenta agir como antes mas com alguns maneirismos estranhos. Erra ao por a máscara (fazendo o seu uso inútil), erra ao comprar no mercado (não sabe se mais ácido acetil salicílico ou dipirona ou qualquer coisa que lhe dê a impressão de cuidado), acaba por comprar bolacha maisena, miojo e qboa (não me pergunte o porquê dessa tríade).Comprei o mesmo pois sou um cidadão comum, bolacha, miojo e me segurei para não comprar a qboa. Foi difícil.
Comprei também uns amendoins, mais ração para os gatos, uísque, algumas cervejas e leite em pó (tinha a vívida impressão de que alguém confiável me orientou a comprar o leite em pó, fato é que isso não ocorreu e eu estou com três sacos de leite em pó sem ao menos gostar de leite). Recebi um desconto de 12% da empresa onde trabalho, o dólar me come 60% e o frete 50. Tenho que elaborar cartas com dez dólares cada pedindo desculpas por não comprar nada. Esse mundo é magnífico. Você nem precisa contrair dívidas para dever.
Combinei de jantar com minha namorada. Arrumamos a casa, molhamos as plantas, ajeitamos os gatos e comemos pastéis. Temos um acordo ótimo, ela não bebe, portanto eu bebo por nós dois. Tomei banho ao ar livre de madrugada. Visivelmente por parte do dia esqueci a tragédia. Trabalhei, sorri, brinquei. Se pá já sou um homem pródigo(minha mãe que não me ouça). Sempre fui, mas a bíblia me salvou.
Jr.

Nenhum comentário:

Postar um comentário