quinta-feira, 19 de março de 2020

Diário da pandemia. Dia I.

Diário da pandemia. Dia I.
18/03

As pessoas estão alvoroçadas há algum tempo. Quer seja pelos problemas cotidianos e pessoais, quer pelos extraordinários e sociais. Notadamente a preferência pelos primeiros em detrimento dos segundos é típica da human nature (sei que Hume entende o sofrimento, mas não entenderia o Twitter).
Mesmo vivendo nesse país inominável e inclassificável eu mantinha minha postura calma de sempre a despeito dos tormentos aterrorizantes da consciência e da pressão em 13 por 7 (normal, normal, normal, como diz Jessier Quirino). Hora de sempre, caminho de sempre, na escola os alunos tinham perspectivas e reações variadas. Um deles sugeriu interromper imediatamente qualquer explicação que levasse (que desgraça) a algum conhecimento. Vê se pode? Ir na escola aprender alguma coisa? as pessoas devem estar loucas mesmo. "Para quê aprender se vamos todos morrer?" Disse sorrindo. Eu pensei ainda em argumentar que mesmo antes da morte iminente ele não estava interessado em aprender, mas me reservei pelo acerto de que vamos todos morrer mesmo, ainda que a maioria não seja de corona nem nesta pandemia. Outra manteve seu discurso corriqueiro: "tudo isso aqui é inútil!"....tive uma digressão sobre se cortar os cabelos de alguém escondido era coisa útil mas voltei ao raciocínio natural. Todos vamos morrer e grande parte do que se aprende na escola é inútil. É, se a irrefutabilidade desses argumentos fosse oriunda de um raciocínio tácito eu me renderia. Como provém exclusivamente da preguiça, segui as normas. O mundo é magnífico, é possível estar certo e errado dizendo exatamente as mesmas palavras. I love It.
O alvoroço natural da incerteza terminou com a determinação governamental. De repente o que parecia ser "coisa lá com os outros" agora era cosa nostra.... Sem os sicilianos mas com um amargo na garganta, a pandemia chega de verdade ao pé de serra. (Não duvido que já tenha chegado antes mas, como todo vírus ainda inocente, pode estar reservado na sua educação prematura esperando, do pulmão de um nativo, emergir para o conhecimento geral)
Até a noite entre trabalho e reflexão, imaginei as variadas maneiras de cumprimentar um possível visitante.

- Bem vindo meu caro Corona! (resolverei a cacofonia no futuro), que fazes o senhor por aqui? Não quer entrar para tomar uma xícara de alvéolos pulmonares?

Pensamento doido. Quem ia ser tão educado com semelhante sacripanta?

- Óia, seu rapazinho china, ninguém lhe chamou aqui. Ninguém gosta de quem se acha a majestade (tapa na coroa). É bom tu pegar teu rumo que o povo aqui é valente.

Fica claro que as digressões são contínuas mas nem sempre lógicas.
Fui dormir por volta das 2 da madrugada escrevendo um script chato pra caramba. Por ironia, pago pela China (quem sabe não devesse ter sido tão duro com o visitante na imaginação acima). Tanto faz. Amanhã é outro dia. Vou alimentar os gatos cedo e cuidar para não estar ocupado com os que já são de casa (Dengue, Zica, Chikungunya) quando o novato chegar, ia ficar desconfortável.
Jr.

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