Diário da pandemia. Dia VIII.
25/03
Choveu outra vez essa noite. A chuva parece mais natural quando não está entremeada de barulhos humanos. O ambiente também melhora nessa grande ironia do tempo enquanto clima: aqui no interior tempo bom é chuva, para a "capital" é ruim. Embora o camarada Ari tenha se zangado comigo uma vez por eu ter dito isso, a verdade é que tudo depende da perspectiva. E na perspectiva de quem precisa ver sair do solo onde a chuva caiu, sua comida, sua roupa, seu remédio, seu sustento, enfim, sua alegria, fica difícil chamar essa entresorte de "tempo ruim". Do mesmo jeito que é difícil explicar para o cara de tênis e meia, camisa branca, no meio dos ônibus, esgotos, calçadas, na sarjeta cheia de água suja, que isso é bom. Perspectiva amigo Ari.
Preciso de um jeito de fugir das notícias, mas elas pululam por todos os lados como pulgas. O papel sarnento do jornal exibe-as, os sites deixam-nas saltar na nossa cara, o celular vibra no bolso a todo instante. Melhor pensar no trabalho e evitar o ódio o máximo possível. Revisão de rotinas, algumas horas de leitura de logs repetitivos, o diretório /proc é meu amigo de longa data. Corrigir redações, elaborar atividades. Vejo e já se passaram das 14h. Sem ódio, respire... 1..2..3.
Terminei Camus ontem, que será agora? Outra releitura ou algo novo? Ano passado li o Tomo 2 da seleção de sermões do P. Antônio Vieira, acho que é a hora de ler o 1º. Estava guardando esse volume, pois nele estão os que mais gosto: Sexagésima de 1655, Santo Antônio (aos Peixes) de 1654, o Sábado quarto da Quaresma de 1652 (o homem como seu próprio demônio, é pertinaz nesse momento atual). São delícias da língua portuguesa às quais me darei ao luxo pelos próximos dias.
Certo de que não falarei sobre política hoje, visto que ontem depositei toda a minha confiança nas mãos do nosso messias, tenho que comentar um acontecimento aparentemente fugaz do fim da noite. Eu precisava de umas camisas e fui buscar na web algum sítio onde comprá-las, há muito procuro uma camisaria decente para comprar nela até morrer. Odeio mudanças. Zé biscoito infelizmente abandonou o ramo e eu venho me arrastando com as últimas que comprei a ele, divagando entre o maltrapilho e o desbotado. Encontrei um lugar por meio de uma propaganda do Instagram, escolhi e comprei duas pretas iguais (como sempre). É o teste, espero que sejam do meu agrado para “montar barraca” e descansar desse infortúnio que é não ter um lugar habitual onde escolher suas camisas iguais de sempre. O que queria comentar não era isso exatamente. Mas as promoções; como essa, que surgem agora frequentemente salientando a opção de frete grátis para "ajudar com o momento triste de pandemia pelo corona vírus". Sei.
O mercado, essa entidade maravilhosa sem rosto, pluridentitária e eclética, nunca perde. A economia, sua avó, não se deixa esquecer nem por cima de cadáveres. Mas o capitalismo, seu dono/pai, é lindo e justo, meritocrata. Sem cismas oferece doença e remédio, dor e analgésico, esperança e morte, e caixão e velório. A trindade está um tanto diferente não acha?.
Vejo alguém recitar hoje o salmo 23 e tenho a ligeira impressão de ouvir outra coisa: “ - O capitalismo é meu pastor, nada me faltará(desde que eu pague bem)”.
Mamon dá like.
Jr.
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